Segunda-feira, 28 de Maio de 2012

# 26

no jantar ouvi o meu irmão dizer que ao marquês de Béchamel devemos mais que o molho branco. devemos isto, mais todas as minudências e estrangeiradas catitas capazes de forrar o fundo falso de muitos conceitos. por exemplo, a comitiva de clichês necessários para se passar do porto ao vermute e deste, quase sem sobressaltos, ao moscatel. não sei se esses preconceitos algum dia compartilharam o status de Verdades. o que eu sei é que, ao contrário do outro, o Apocalipse que estou a escrever existe. e não apenas da meia-noite às cinco da manhã. acham que estou a usá-los como anteparo para o pingue-pongue das minhas besteiras? não estou. o cancro de alguém come boa parte também das pessoas que estão à volta. e não faz nenhuma diferença que mandem para cá as vossas corvetas e fragatas de apoio. aviso-os daqui: os pudores foram todos enterrados de borco, como os judeus que se suicidam. rir ou rezar? tanto faz. as merdas convergem e a partir daí chamamos tudo de “abstracto”. o cancro ergue o saiote da realidade e deixa-nos ver que há caralhadas de hectares de maneiras diferentes de matar um gajo, mas só uma do gajo morrer. e tudo torna-se, de uma hora para outra, inexplicável. o êxodo de conjecturas tão david humeanamente regurgitadas. guizos, tambores, tudo às costas a chacoalhar, e os acontecimentos sequer levantam a cabeça para nos verem passar. por falar nisto, se quiserem compor um tipo realmente blasé diante das merdas, metam duas ampolas de cianeto na boca e mastiguem – por via das dúvidas, cortem antes a femoral e a aorta. ou isto ou aprendam a chorar com os olhos completamente secos.


lembro do tempo em que roubava moedas e cigarros das gavetas do homem que agora tenho a morrer nos braços. passava as noites a fumar e a ler literatura da Marvel. de lá para cá, nem sempre consegui dormir; mas onde quer que fosse, sempre tentei... estivesse numa tenda árabe ou num iglu, sempre fiz o que pude. dei braçadas infinitas para ir até a minha dimensão mais egoísta. mas claro, – caralho do céu! – claro que ninguém precisa dar-se ao trabalho de acreditar num palito de merda do que digo. desacreditem. é fácil. e não é preciso ficar doente por isto. a verdade só existe para que possamos gafanhotá-la sem qualquer vergonha. e depois, a vida (a minha, pelo menos) tornou-se uma merda impossível de realizar e até de definir. podem-se descartar os acessórios, cruzar os braços, as pernas, e esperar que deste blogue os van goghs saíam sem orelhas, sem olhos, a cuspir os miolos pelo nariz. isto são merdas encontráveis em qualquer lugar e a qualquer hora, a pastorear as vacas e os pensamentos, danças de regimes, democracias aerotransportadas, quebra-quebras de um continente a outro. e a verdade na janela, pendurada pelos pés. e a mentira a fazer par com ela. as duas cadelas a balançar na mesma corda, apertadas no mesmo nó. enfim... uma que coisa que aprendi é que, todos os dias, o diabo acorda cedo para sofisticar os nossos problemas, e não só por uma razão. por dez! cem! o chiaroscuro (e o oscuroscuro) a tremelicar como nos quadros de Le Nain. na verdade, não há situação difícil que se mantenha. uma enfermeira passa pelo corredor. pergunta se estou bem. eu não posso dizer não... também não posso dizer sim, sem mais nem menos. vou até a máquina de coca-cola. pelo jeito há muito tempo que não funciona. o meu relógio biológico também. ele ainda pensa que está em Lisboa. outra enfermeira passa. que rabo! enorme, de um horizonte a outro. onde quer que se esteja, debaixo de uma nuvem de confetes ou na companhia de biliões de fósforos acesos, os sentimentos diante de um rabo bem feito são sempre os mesmos. mais adiante outras enfermeiras, nalgas saltitantes, mamas idem, fazem sucesso pelos corredores. olho para o relógio na parede. 4:00 am. caralho, uma das cadelas não pára de olhar na minha direcção. não era o momento de fazer cara disto ou daquilo. não me vou armar em cético ou bancar o cansado. digo para mim mesmo: peor, é hora de nos regalarmos, não de ficarmos parados a esperar que todos os comboios se choquem. é preciso precipitar as cenas, dedicar algum tempo àquela gaja, ainda que seja apenas para depois poder odiá-la. quanto ao resto, um bocadinho de estoicismo não faz mal a ninguém. à merda! os acontecimentos que se desviem sozinhos.

O mais peor às 10:17
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1 comentário:
De silvia a 30 de Maio de 2012 às 11:51
Excepcional conseguires traduzir em palavras o que o coração sente em situações limite ...


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