Sexta-feira, 8 de Junho de 2012

# 32

a rapariga de pescoço tatuado que conheci no bar do hospital apareceu. ela havia subido alguns andares no meu conceito depois que a ouvi desatomizar uma merda dos pixies à base de perdigotos cósmicos na saída leste do estacionamento. tinha-lhe dado uma nota baixa, 4 ou 5. valia mais, talvez 8 em 20. agora está aqui, sentada no meu tapete, a encher o cachimbo com uma espécie de feno. tem as sobrancelhas  e pálpebras pintadas à azul. espirra, funga, fala um pouco da irmã que tem 11 anos e está com leucemia. depois segura o cachimbo com a boca e remexe na pilha de livros ao lado da minha cama. quer levar emprestado dois delillos e um nelson goodman. faço que “sim” com a cabeça. pode fazer punhados de confetes com eles, se quiser. estou de pé. tenho a impressão de que tempestades ou desarranjos químicos estão a engatilharem-se em alguma parte do meu corpo. ela usa uma mochila pequena às costas. não mora longe. posso ver a sua bicicleta pela janela, o guidão apoiado numa lata de lixo. do outro lado da cerca, apanhados nas algas, três putos estão a bater nos recifes de um laguinho artificial. dois deles saem da água. sobem numa árvore, cada um num galho diferente. ameaçam pular. o terceiro berra qualquer coisa e também sai correndo. pronto, vão os três contar as pedras do fundo de cabeça. ela reacende o cachimbo, fala sem parar. vejo as frases multiplicarem-se como pólipos no seu intestino. no fundo, são mais trinta e tantos minutos de conversa mole sobre a quantidade de vazio acumulado numa semaninha em que 2 Vesúvios estiveram a arrebentar ao mesmo tempo na minha cabeça. mas ela continua, quer revirar tudo, os sentimentos errados também... pelo avesso, como os dedos de uma luva. ok. vamos ver, vamos julgar. a longevidade dos Simpsons, merdas futuras, México e Lucy knisley. acabou. ela mete o cachimbo e os livros na mochila e vai embora. lá fora, já montada na sua bicicleta. ela vira a cabeça, me olha sem dizer nada. é o espírito da América com a espingarda carregada. em sursis. mas de quê? bom, já não importa. não aconteceu como queríamos, mas aconteceu.

 

O mais peor às 06:58
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1 comentário:
De silvia a 9 de Junho de 2012 às 13:49
Aconteceu :)
para nós (leitores) resultou num bom texto :)
Thanks


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