Sexta-feira, 27 de Julho de 2012

# 38

de uma janelinha, um velho está a olhar para nós através da vidraça, abre-a: “o que é que desejam?”. sacode as argolas nas orelhas, ao dizer não com a cabeça. mostra-nos um pandeiro. sorri. faltam-lhe uns dentes. ele tem no dedo um anel com a pedra virada para baixo. bate na pele esticada do pandeiro. pã! pã! começa a dançar. bate mais forte. PÃ! PÃ! gira. sacode o lornhão cravejado de vidros e o leque que estão ao dependuro no pescoço. a cara toda maquilada, igual a uma puta velha, de batom, esmalte nas unhas, barretina, alamares roxos, espada com fiador de ouro e os anéis de cabochão em todos os dedos da mão com que segura o pandeiro. sem parar o barulho, ele abre a porta com o pé. estica bem uma das pernas para fora. arranca o bigodinho à Hitler. estava colado, era falso. dá mais duas giradas e caranguejola com o bigode na mão. a ciganona atrás dele começa com as castanholadas, revoadas de trinados, minúsculos. eu bato palma. não tem outro jeito. depois paro e pergunto sobre a heroína. faz-me um gesto de que aquilo está acima do seu entendimento. ficamos ali. só as cabeças para dentro, damos uma boa olhada. não se ouvia mais o seu tambor. quer nos vender cigarros. tinha pelo menos 3 anos pela frente para esgotar o estoque de Lucky Strike falsificado. recuamos. de longe, vejo o trailer todo mudar de cara. o velho volta a dançar. é a expressão dinâmica das minhas tristezas. as árvores próximas foram decoradas com penduricalhos. o principal sentimento diante das merdas é o de surpresa. merdas planas como discos – vermelhas, verdes, amarelas. ao lado das árvores há pequenas covas. o fundo de um dos buracos está forrado de feno. a palha conserva a forma de um rabo humano. um gajo passa 2 dias metido num daqueles buracos e depois lembra-se dele como sendo tão seguro quanto o seu apartamento em Lisboa. continuo a andar. subo 2 morrinhos. e antes de virar para a direita e alcançar a rua, volto a cabeça. mais 3 ou 4 ciganões desceram do trailer. estão a abraçarem-se como na noite de natal. não sei o porquê, mas todos aqueles abraços fizeram-me recordar da Fátima. a Fátima é uma milf de Sintra que gostava de ter dado 10 filhos para o sucesso das idéias e da verdade de Salazar. para mim, o Salazar é um gajo que devia ser desenterrado e reenforcado todos os anos pelo menos 15 vezes. ele e mais todos os cardeais do vento, Pedro Mexia e etc. agora, ao atravessar a rua, também não sei o porquê, lembrei que, segundo o disse-me-disse, as trombetas deviam soprar num pânico gemelar ao êxtase. mas aqui 0%, nem uma cornetinha. talvez esta merda venha a propósito da bíblia muito mal desenhada ali na parede do hotel. seja como for, nunca mais me endividarei a ler o antigo testamento. o fim do mundo ocorrerá. se é que já não ocorreu.

O mais peor às 02:14
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3 comentários:
De Anónimo a 28 de Julho de 2012 às 22:33
http://www.youtube.com/watch?v=KDIold1hwT4


De silvia a 28 de Julho de 2012 às 20:38
:)))


De Anónimo a 27 de Julho de 2012 às 22:19
http://www.youtube.com/watch?v=kvbII7Gk9D0


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