Terça-feira, 12 de Junho de 2012

# 34

as primeiras e as últimas conversas com uma pessoa tendem a ter um registo adolescente. estou encostado na porta. meu pai espeta mais um pedaço de assado enquanto fala ao meu irmão a respeito do Impala azul claro que comprou quando tinha a minha idade. vejo embriõezinhos de ressentimentos a espionar por uma fenda de luz entre duas facas de cozinha. viver não significa nada. esta é uma convicção que compartilho com o mais espalhafatosamente schopenhaueriano dos adolescentes. deixo-os ali e subo para o quarto. este quarto que é uma representação do desmoronamento interno do mundo material. olho-o e sinto compaixão por ele, como se se tratasse de uma pessoa. reconheço em cada uma dessas coisas um suplemento de ansiedade capaz de fornecer à minha memória um apoio escorregadio. a mesa diante de mim, ou esta cama que tenho ao lado, carecem nitidamente de esperança. e aquele abajur aceso sobre uma pilha torta de livros é o resultado de uma cumplicidade objectiva onde foi superada a fase em que ainda era possível escolher. até o reebok no parapeito ou o vime trançado de uma cadeira de balanço adquirem o aspecto de uma divagação. relógio, maletas, halteres, livros, calendários... tudo ficou retorcido nos meus nervos. mas, por vezes, sinto a calma de um abismo pré-natal, a submersão de uma multidão de erros no ranho amniótico. e é assim, com uma fadiga prazerosamente inexplicável, que afundo nesta poltrona e na minha falta de curiosidade.

O mais peor às 10:44
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